A avenida de R$ 55 milhões e o futuro do Aeroporto de Marília
Prefeitura de Marília aposta em avenida enquanto aeroporto perde áreas de expansão em um momento decisivo para o futuro da cidade. Há coincidências que merecem atenção. Porém, há coincidências que exigem explicações.
Em Marília, duas apresentações ocorreram praticamente ao mesmo tempo e apontam para a mesma direção: a redução do plano diretor e do potencial de crescimento do Aeroporto Estadual de Marília Frank Miloye Milenkovich.
No mesmo dia em que a Prefeitura de Marília apresentou o projeto da avenida transversal, que custará R$ 55 milhões e ligará a região do Bosque Municipal à Avenida Cascata, passando nas proximidades da cabeceira 03 do aeroporto, também veio a público a proposta da concessionária Rede VOA à ANAC para um novo plano diretor do aeroporto de Marília.
A proposta reduz significativamente as ampliações previstas há mais de 36 anos.

Projetos separados já mereceriam amplo debate
Separadamente, cada proposta já mereceria amplo debate.
Juntas, no entanto, elas revelam algo mais profundo: ações coordenadas que apontam para uma mudança completa de visão sobre o futuro da principal infraestrutura estratégica da cidade.
Durante mais de três décadas, o DAESP planejou o aeroporto de Marília e reservou áreas para a construção de um novo terminal de passageiros, de um novo pátio e para a expansão de 180 metros da pista de decolagem na direção da Fazenda Cascata.
Esse planejamento buscava ampliar a operação e aumentar a capacidade aeroportuária. Além disso, todos esses pontos constam no plano diretor do aeroporto e afetam as construções ao redor da área aeroportuária.
Essas áreas não surgiram por acaso, pois aeroportos não atendem apenas ao curto prazo. Eles precisam servir à cidade por mais de cinquenta anos.

O planejamento histórico pensava em crescimento
A geração que projetou o futuro do aeroporto de Marília compreendeu que o crescimento da cidade exigiria mais espaço para aeronaves, passageiros, empresas, hangares, manutenção aeronáutica, novas ligações aéreas e uma pista maior.
Agora, porém, esse conceito parece estar sendo completamente substituído pela exploração imobiliária.
A área interna do aeroporto, historicamente reservada para a implantação do novo terminal de passageiros e preservada durante mais de 36 anos para expansão aeroportuária, passa a ser tratada como área destinada à exploração comercial comum.
Em outras palavras, um espaço pensado para o crescimento da aviação poderá receber empreendimentos comerciais que poderiam ser construídos em qualquer outro local da cidade.

Avenida transversal depende da mudança no plano diretor
Isso acontece justamente quando a cidade discute uma avenida transversal que só poderia ser possível graças à mudança do plano diretor pela Rede VOA.
Além disso, o projeto aproxima ainda mais a urbanização de uma das cabeceiras da pista que deveria receber ampliação de 180 metros.
O resultado prático é evidente.
Menos área disponível para expansão da pista.
Menor capacidade de ter voos para São Paulo.
Mais ocupação urbana.
Mais limitações para o aeroporto.
Restrições para aeronaves maiores.
As perguntas que Marília precisa responder
A pergunta é inevitável.
Por que utilizar justamente as áreas reservadas para o crescimento do aeroporto?
Também é preciso questionar por que a avenida não respeita a futura área de expansão da pista.
Outra dúvida permanece: por que reduzir o plano diretor do Aeroporto de Marília?
Além disso, qual justificativa existe para aproximar ainda mais a ocupação urbana de uma infraestrutura que deveria estar protegida e preparada para crescer?
A região defende um aeroporto maior
O mais curioso é que essa visão não parece ser compartilhada pelo restante da região.
Nos últimos anos, lideranças empresariais, lideranças comerciais, entidades aeronáuticas, representantes da sociedade civil, deputados estaduais da região, parlamentares federais e diversos setores ligados ao desenvolvimento regional têm defendido justamente o contrário: a ampliação do aeroporto e a execução do projeto de expansão de acordo com o plano diretor do DAESP.
A Rede VOA, inclusive, recebeu solicitação do Governo do Estado de São Paulo para executar um estudo voltado à implantação do projeto de terminal determinado pelo plano diretor do DAESP.
Portanto, existe necessidade e pressão real para a execução da expansão do Aeroporto de Marília.
A reivindicação regional é clara. Não se pede um aeroporto menor, a redução do plano diretor e de áreas operacionais, nem a substituição das áreas de expansão por empreendimentos comerciais.
O que se pede é exatamente a concretização do projeto do DAESP, que reservou áreas para o crescimento do aeroporto ao longo das últimas décadas.
Prefeitura de Marília e Rede VOA seguem no sentido oposto
Por isso, chama atenção que, enquanto praticamente todos os debates locais, regionais e estaduais buscam um aeroporto maior, mais moderno e mais preparado para o futuro, as decisões da Prefeitura local encontram alinhamento com a concessionária Rede VOA no sentido oposto.
O contraste fica ainda mais evidente quando se observa o restante do interior paulista.
Ribeirão Preto ampliou seu aeroporto.
São José do Rio Preto ampliou seu aeroporto.
Presidente Prudente ampliou seu aeroporto.
Bauru recebeu um novo aeroporto.
Araçatuba, cuja região possui população e atividade econômica inferiores às da região de Marília, dispõe hoje de uma infraestrutura aeroportuária muito superior.
Além disso, a cidade consegue receber regularmente e simultaneamente diversas aeronaves, como Boeing 737 em operações comerciais. Hoje, Araçatuba recebe voos comerciais diários da GOL para São Paulo.
Enquanto outras cidades investem para crescer e se desenvolver, Marília discute reduzir áreas de expansão e transformar espaços aeroportuários estratégicos em áreas de exploração comercial.
Marília pode caminhar para trás na aviação regional
A consequência pode ser histórica.
Marília corre o risco de se tornar a única cidade de médio porte e centro regional do interior paulista que não receberá voos para São Paulo.
Além disso, sua evolução aeroportuária pode caminhar para trás enquanto outras cidades avançam.
E isso não afeta apenas passageiros. Também afeta empresas, investimentos, atração de novas rotas, empregos, competitividade regional e o desenvolvimento econômico das próximas décadas.
A verdadeira discussão não é sobre uma avenida, sobre um terminal de aeroporto, sobre um aeroclube e muito menos sobre um único governo.
A verdadeira discussão é sobre qual cidade Marília deseja ser daqui a vinte, trinta ou cinquenta anos: uma cidade que prezou o desenvolvimento ou a exploração imobiliária.
Aeroporto perdido não tem segunda oportunidade
Uma avenida pode ser construída em vários lugares.
Empreendimentos comerciais podem surgir em inúmeras áreas da cidade.
Mas, quando um aeroporto perde definitivamente suas áreas de expansão, não existe segunda oportunidade.
Por isso, a pergunta que permanece sem resposta é simples.
Se o planejamento histórico previa um aeroporto maior, se todos os políticos, empresários e a população da região defendem um aeroporto maior, se as cidades concorrentes investem em aeroportos maiores e se o desenvolvimento econômico depende de infraestrutura aeroportuária moderna, por que a Prefeitura de Marília está discutindo justamente o caminho contrário?
Talvez essa seja a pergunta mais importante para o futuro da cidade.
E talvez os marilienses mereçam uma resposta antes que uma decisão irreversível seja tomada.





